Confeitaria sem glúten

Farinhas sem glúten: qual usar para bolo e como montar o mix

Nenhuma farinha sem glúten substitui sozinha a farinha de trigo no bolo: o resultado vem de um mix. Pelo método de Eloisa Cola, uma farinha base dá corpo, amidos leves como fécula de batata e polvilho doce dão maciez e uma goma faz a liga. O mix publicado no blog da escola leva farinha de arroz, fécula de batata, polvilho doce e goma xantana.

Eloisa ColaAtualizado em

Qual farinha sem glúten usar para bolo

Para bolo, a farinha sem glúten que funciona é um mix, e não uma farinha só. Uma farinha base dá corpo e sabor, um ou dois amidos leves dão maciez e uma goma faz a liga que o glúten faria. Usada sozinha, qualquer uma delas deixa falhas na textura.

Eloisa Cola resume a regra no post sobre funções dos ingredientes: a farinha de trigo pode ser trocada por farinhas de arroz, quinoa ou milho, mas "cada tipo de farinha acrescenta certa consistência e sabor à massa". Escolher a farinha é escolher a textura que o bolo vai ter.

Farinha base, amido e goma: a farinha base (arroz, milho, sorgo) dá corpo; o amido (fécula de batata, polvilho doce, amido de milho) dá leveza e maciez; a goma (xantana) liga a massa e segura a umidade. É a estrutura do mix publicado no blog da Escola Eloisa Cola.

Por que nenhuma farinha sem glúten trabalha sozinha

A farinha de trigo faz duas coisas ao mesmo tempo: dá amido e forma glúten. O glúten é a rede elástica que nasce quando as proteínas glutenina e gliadina encontram água e movimento, como Eloisa Cola explica no post sobre bater a farinha. É essa rede que prende o gás do fermento.

As farinhas sem glúten entregam amido, mas não a rede. Um estudo da Universidade Federal de Pelotas sobre bolos sem glúten registra que as farinhas de arroz e de milho têm capacidade limitada de reter o ar. Por isso o mix precisa de um terceiro elemento, a goma, que dá à massa a viscosidade que segura as bolhas.

O detalhe técnico explica os defeitos mais comuns. Farinha base demais deixa o bolo pesado; amido demais deixa o miolo gomoso ou seco no dia seguinte; goma de menos deixa o bolo esfarelar. Os sintomas e as causas estão no guia de confeitaria sem glúten e sem lactose.

Tabela de farinhas e amidos sem glúten

A tabela reúne o que a Embrapa, universidades brasileiras e o blog da Escola Eloisa Cola publicaram sobre cada farinha, amido e goma usados na confeitaria sem glúten. As quantidades de uma receita real estão no mix logo abaixo.

Farinha, amido ou gomaFunção no mixTextura que dáOnde usar
Farinha de arrozFarinha base: corpo e estruturaFirme; sozinha, retém pouco ar e fica arenosaBase de bolos, cookies e massas; é a maior parte do mix do blog
Fécula de batataAmido leveMaciez e miolo mais leveBolos fofos, em mistura com a farinha base
Polvilho doce (amido de mandioca)Amido leveLeveza e maciezBolos e bolo inglês; em estudo da Unicamp, foi o amido escolhido para o bolo sem glúten
Polvilho azedoAmido fermentadoExpande no fornoBiscoito de polvilho; não é o polvilho do bolo do blog
Amido de milhoAmido leveMaciezBolos e cremes, em mistura; também testado pela Unicamp
Farinha de milhoFarinha baseSabor de milho; sozinha, retém pouco arBolos de milho e cookies; a Embrapa testou bolos e cookies sem glúten com farinha de milho branco
Farinha de sorgoFarinha baseCor clara e sabor neutro (sorgo branco)Bolos e cookies; a Embrapa aponta potencial para produtos destinados a celíacos
Farinha de quinoaFarinha baseConsistência e sabor própriosEm mistura, citada por Eloisa Cola entre as trocas do trigo
Goma xantanaLigante (hidrocoloide)Liga, reduz migalhas e retarda o ressecamentoPouca quantidade em bolos, cookies e pães sem glúten
C.M.C (carboximetilcelulose)Espessante, aglutinante e estabilizanteMassa mais homogêneaEloisa Cola cita como bom substituto do glúten, de 1 a 5 g por quilo de massa
PsylliumFibra que forma gelLiga e elasticidadePesquisado em pão sem glúten pela Unifesp

Três leituras da tabela evitam a maior parte dos erros. O polvilho do bolo é o doce, e não o azedo: o azedo é a fécula de mandioca fermentada, cuja fermentação muda o amido e dá a expansão do biscoito de polvilho, segundo pesquisa da Universidade Federal de Lavras. A farinha de sorgo branco tem cor clara e sabor neutro, por isso não muda a cor nem o gosto do bolo, segundo a Embrapa Milho e Sorgo. E as gomas trabalham em gramas: o C.M.C, por exemplo, vai de 1 a 5 g por quilo de massa, "nunca mais que isso", nas palavras de Eloisa Cola.

O mix de farinha sem glúten publicado no blog da escola

O blog da Escola de Confeitaria Eloisa Cola publicou um mix pronto para bolo, usado no bolo de cenoura sem glúten. O post traz as quantidades em gramas:

  • 250 g de farinha de arroz
  • 125 g de fécula de batata
  • 65 g de polvilho doce
  • 4 g de goma xantana

Na conta, a farinha de arroz é pouco mais da metade do mix (cerca de 56%), a fécula é cerca de 28%, o polvilho doce cerca de 15% e a goma xantana menos de 1%. É a estrutura de farinha base, amido e goma: a farinha de arroz dá corpo, os dois amidos dão leveza e a goma liga tudo. O mix rende 444 g, e o bolo usa 130 g; o restante fica guardado para a próxima receita.

O post pede balança digital para pesar o mix. Em xícara, a quantidade de cada pó muda a cada medida, e a proporção entre farinha, amido e goma muda junto. A receita completa, com o passo a passo e o porquê de cada etapa, está em bolo sem glúten fofinho.

  1. Pesar cada farinha e amido na balança, na proporção da receita.
  2. Juntar a goma xantana aos secos e misturar bem, para ela ficar distribuída por igual.
  3. Guardar o mix em pote fechado e identificado, longe da farinha de trigo.
  4. Misturar o mix com a parte líquida e deixar a massa descansar antes de assar, para as farinhas absorverem a umidade.

A goma xantana: quanto e por quê

A goma xantana é o ingrediente que mais muda o bolo sem glúten. Em entrevista com uma nutricionista publicada no blog da Escola Eloisa Cola, a explicação é que a goma "dá viscosidade e a elasticidade" e "faz os ingredientes secos interagirem com os molhados". Sem ela, e sem a hidratação certa, o bolo sai seco do forno e fica úmido demais no dia seguinte.

A pesquisa confirma o efeito no corte e na validade. No estudo da Universidade Federal de Pelotas, publicado na revista de tecnologia agroindustrial da UTFPR, bolos de farinha de arroz e de milho com goma xantana formaram menos migalhas, pareceram mais úmidos e envelheceram mais devagar ao longo de nove dias do que os bolos sem goma. As versões com 0,3% e 0,4% de xantana tiveram as melhores notas.

Pouca goma basta, e o excesso também atrapalha. No mix do blog são 4 g em 444 g de mistura. Goma demais deixa a massa gomosa, como o pilar de confeitaria sem glúten e sem lactose descreve na tabela de erros.

Trocar parte do trigo não deixa o bolo sem glúten

Substituir só uma parte da farinha de trigo não torna a receita sem glúten. A Embrapa Milho e Sorgo alerta que preparações em que a farinha ou o amido de sorgo "substituam apenas parcialmente a farinha de trigo" não podem ser consumidas por celíacos, por causa do glúten do trigo que continua na receita.

É a diferença entre economia e restrição alimentar. A dica de Eloisa Cola de trocar 30% da farinha de trigo por amido de milho, explicada em confeitaria sustentável, reduz custo, mas o bolo continua com glúten. Para o cliente que não pode comer glúten, a troca é total, com ingredientes que tragam "não contém glúten" no rótulo.

A aveia comum também fica de fora. O glúten é formado por proteínas presentes no trigo, no centeio, na cevada e na aveia, como Eloisa Cola lista no blog, e a Embrapa avisa que um produto com aveia "não deverá ser consumido por celíacos". Só entra aveia com certificação sem glúten.

Como escolher a farinha para cada preparo

  • Bolo fofinho: farinha de arroz como base, fécula de batata e polvilho doce para maciez, goma xantana para liga. É o mix do blog.
  • Bolo de milho: farinha de milho como base, que já dá o sabor; a Embrapa publicou bolos e cookies sem glúten com farinha de milho branco.
  • Bolo de sabor neutro: farinha de sorgo branco, que não muda a cor nem o sabor da massa.
  • Biscoito que expande e fica oco: polvilho azedo, e não o doce.
  • Pão sem glúten: o psyllium aparece nas pesquisas de pão da Unifesp; no bolo, a goma xantana resolve com menos quantidade.

Antes de vender, o teste é em pequena escala, comparando a receita nova com a de sempre no mesmo forno. As trocas de outros ingredientes, como ovo, leite e manteiga, estão no guia de substituições na confeitaria.

Perguntas frequentes

Qual a melhor farinha sem glúten para bolo?

Não existe uma farinha sem glúten melhor para bolo: o bolo funciona com um mix. O mix publicado no blog da Escola Eloisa Cola leva 250 g de farinha de arroz, 125 g de fécula de batata, 65 g de polvilho doce e 4 g de goma xantana.

Como fazer mix de farinha sem glúten?

Pesando uma farinha base, dois amidos leves e uma pequena quantidade de goma, e misturando tudo a seco. No mix do blog da Escola Eloisa Cola, a farinha de arroz é cerca de 56% do total, a fécula de batata 28%, o polvilho doce 15% e a goma xantana menos de 1%.

Polvilho doce ou azedo no bolo sem glúten?

Polvilho doce. É o que entra no mix do blog da Escola Eloisa Cola e o amido escolhido num estudo da Unicamp para bolo inglês sem glúten. O polvilho azedo é fermentado e serve para preparos que precisam expandir, como biscoito de polvilho.

Posso fazer bolo sem glúten sem goma xantana?

Pode, mas o bolo tende a esfarelar mais e a ressecar mais rápido. Em estudo da Universidade Federal de Pelotas, bolos sem goma formaram mais migalhas e envelheceram mais rápido do que os bolos com goma xantana.

Farinha de aveia é sem glúten?

A aveia comum, não. Eloisa Cola lista a aveia entre os grãos com glúten, e a Embrapa avisa que produto com aveia não deve ser consumido por celíacos. Só entra a aveia com certificação sem glúten no rótulo.

Trocar metade da farinha de trigo deixa o bolo sem glúten?

Não. A Embrapa Milho e Sorgo alerta que receitas com troca parcial da farinha de trigo continuam com glúten e não podem ser consumidas por celíacos. Para ser sem glúten, a troca é total.

Fontes

  1. Eloisa Cola, blog da escola: Bolo de Cenoura sem glúten (mix de farinhas)
  2. Eloisa Cola, blog da escola: Perguntas Restrição Alimentar
  3. Eloisa Cola, blog da escola: Funções dos Ingredientes
  4. Eloisa Cola, blog da escola: Bater a Farinha?
  5. Eloisa Cola, blog da escola: Preciso usar C.M.C?
  6. Embrapa Milho e Sorgo: Como utilizar grãos de sorgo no preparo de produtos caseiros (Comunicado Técnico 190, 2011)
  7. Embrapa: Milho farináceo branco BRS 015FB em bolos e cookies (Comunicado Técnico 385)
  8. Preichardt et al., Universidade Federal de Pelotas: Efeito da goma xantana nas características sensoriais de bolos sem glúten (Revista Brasileira de Tecnologia Agroindustrial, UTFPR, 2009)
  9. Scavacini e Steel, Unicamp: Avaliação de diferentes fontes de amido e misturas de hidrocoloides na produção de bolo inglês sem glúten
  10. Pereira et al., Universidade Federal de Lavras: Qualidade do polvilho durante a fermentação da fécula de mandioca (repositório Embrapa)
  11. Agência FAPESP: pesquisa da Unifesp com farinha de grão-de-bico e psyllium em pão sem glúten (2021)

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